domingo, 7 de outubro de 2007

The caretaker

Ella não exibe nunca um sorriso radioso a cada novo cliente que se lhe depara ao balcão. Não acolhe os conhecidos com calorosos abraços. Limita-se a falar baixinho, acompanhando o ritmo das palavras com o pestanejar das suas longas sobrancelhas, enquanto perscruta nos armários da memória qual o cocktail que já confortou aquela alma desvalida, ou que nova mistura inventar para lhe acalentar o espírito. Há quem se surpreenda com aquela capacidade mediúnica de ver além das cicatrizes dos outros e saber que história por detrás destas se esconde. Ella fecha-se ainda mais sobre si mesma quando um novato tem audácia de lhe perguntar isso, para depois se abrir num estranho olhar de facto assumido de quem sabe, sabe.

Uma espécie de locus amenus entre tantos locus horrendus. A paz de espírito a que todos anseiam. Que ela distribui, em tons sonoros, palpáveis e deglutíveis. Chega por vezes a ser a mão que empunha a faca. Mas que nunca ousou desferir.

No final de cada noite, Ella serve-se imperetrivelmente do seu Bombay Saphire, e escolhe finalmente a sua banda sonora, ao invés das bandas sonoras dos outros. De janelas abertas, para escoar tanta tristeza e evaporar o sal de tantas lágrimas que se acumulam nos copos e nas esquinas das mesas.

E sente que mais uma vez valeu a pena.

1 comentário:

Rhiakath Flanders disse...

Como todos os barman (ou barwoman, neste caso) Ella não deve beber álcool. Quando ela precisar, não irá ao Bar da Navalha. Não terá quem tome conta dela. Não terá quem a apoie, pois todos irão ver nela a força que ela teve para os outros. Não vão sequer tentar apoiá-la. O que será d'Ella, quando precisar? O máximo que lhe posso dizer será "deixa-te disso... serve-lhes as bebidas, dá-lhes a navalha afiada, e aponta-lhes um quarto para terem privacidade.. não te esqueças de pedir para pagarem primeiro".

Já não se dá apoio a quem precisa. Oferece-se a navalha. É mais humano.