sexta-feira, 23 de maio de 2008

this week's show



Para tirar a cabeça de outros pensamentos perversos.

domingo, 11 de maio de 2008

to be or not to be

Ella levantou o sobrolho desconfiada, como que incrédula perante a visão de homem que se lhe assomou. Igualmente saudosa, pois Petrus há muito que não andava naquelas paragens desde que se tinha assumido como independente - mas profundamente dependente da sua companheira de casa, Joannes. Petrus e Joannes viviam sem viver, não assumindo nunca a evidência que todos lhes ditavam, mas partilhando o comum de todos os pares que vivem entre quatro paredes.

Dias havia em que se separavam, numa espécie de orgulhoso grito de independência, que apenas resultava em picardias e desesperos, numa vã tentativa de determinar quem daria primeiro a mão à palmatória, num jogo sem nome, pois nada tinha designação. Joannes vivia vidas em paralelo, nunca dando de si a ninguém, nunca mostrando toda de si a todos, preferindo manter cada momento compartimentado, hermeticamente fechado e a salvo de futuras podridões.

Petrus, com o seu olhar doce e esperançoso, vivia eternamente naquela sombra de dúvida entre ser o único e não ser nada. Não havia palavras, não havia contratos, não havia uma centelha de certeza que levasse a uma assumpção do estado de coisas. Petrus era simultaneamente invejado e adulado, pela soturna forma como continuava a viver uma vida onde não era mais que um figurante a soldo, mas cujo papel principal lhe estava sempre a ser prometido.

Ella lançou-lhe um olhar inquisidor. Petrus ergueu pela primeira vez os olhos do balcão, perdido na imensidão do mundo, perdidas as forças e simplesmente necessitado de alento e calor humano. Rapidamente desviou o olhar, procurando na mais alta prateleira o sucedâneo mais próximo de alento, sob a forma de Southern Comfort. Por motivos de saúde pública, ficava reservado a situações de emergência como esta.

Sabes, entoou com infinita sabedoria e totalmente desprovida de esperança - pela primeira vez, pareces-me totalmente ciente da amarga realidade em que vives.

Combinou democraticamente o Amaretto e o Southern Comfort. Depois de uma delicada dose de sumo de arando, olhou gulosamente para o frasco de cerejas em marrasquino, ás quais tentou resistir. Agarrou num exemplar perfeito e calculou a rota de queda sobre o copo.

Petrus, subitamente despertado do seu torpor, não permitiu que a cereja se misturasse. Saboreou-a sozinha, lenta e deliciosamente.

E ainda lambeu os dedos.

domingo, 2 de março de 2008

this is no state for a lady

Ella visualizou a receita mentalmente. Kina Lillet (extinto algures nos anos 50), substituível por absinto. Tanqueray Gin, um pouco de quinino em pó, e raspa de limão. (Por mais que se tente, raspa de limão é algo que nunca soa bem num cocktail, ao contrário do sonante inglês lemon peel). E assim surge o Green Vesper.

Rezam as lendas dos alcóolicos que algures no absinto vive uma fada maliciosa, disposta a comer-nos a alma, e a consumir-nos os sentidos. Hemingway chegou ao extremo de criar um cocktail mortal, de absinto e chamapanhe - em final de tarde, acrescente-se. Oscar Wilde afirmou sentir tulipas a crescerem-lhe nos pés após o primeiro copo de absinto. Modigliani e Manet dedicaram-se simplesmente a pintar as figuras dos outros apreciadores de absinto.

Olhando sem receio para o seu copo cheio, Ella desdenhou de todas essas crenças, sabendo bem que a raiz dos males humanos não reside unicamente neste vapores assassinos, sendo somente um escape para outros espíritos mais malignos se corporalizarem.

Ergueu o copo, saudando todas as cadeiras agora vazias de clientes, que ao despontar da estrela da manhã se refugiavam noutro espaços menos acolhedores. O primeiro gole trouxe-lhe um toque a amargo, mas sem aspereza. O limão parecia ser uma dádiva de doce, como se a sua habitual acidez se tivesse dissolvido, deixando apenas uns laivos diferenciativos no meio de tanta amargura.

Espreitou maliciosamente para o fundo, esperando ver despontar uma criatura alada e sorridente, enganosa nesse seu élfico jeito de ser. Nada surgiu, nem mesmo os abandonados fantasmas e corações partidos que assombravam todo aquele espaço. Algo desiludida, não pode deixar de rir de si mesma perante a leveza que lhe começava a assolar o espírito, e a deixar que acreditasse em pormenores nada palpáveis.

O último gole foi digerido já sem esforço, pousando-lhe nos lábios quase como um véu adocicado e guloso. O sol espreitava já por entre as frestas das janelas, traçando riscos paralelos e perfeitos, cujo destino não se alcançava.

Ella caminhou vagarosamente escadas acima, temendo acordar alguma alma esquecida. Pousando a cabeça na almofada, imediatamente se rendeu aos desígnios do elfo que a atormentava.E adormeceu profundamente e sem sonhos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

blind

Ella olhou de relance para o pequeno par de olhos que não a deixavam só nem por um segundo. Só uma história, pediu ela. Prometo que depois adormeço e não peço mais nada. Prometes, sem sombra de dúvida? Nem que venha o monstro do armário? Sim, prometo.

Em tempos houve um reino distante onde morava uma princesa, amada por todos os seus súbditos. Mimada ao extremo pelos seus queridos pais, ela raramente saia de casa, receando eles que ela encontrasse alguma imagem menos bonita, ou alguma pedra nas estradas, e que voltasse ao seu recanto desiludida, pensando que o mundo não era perfeito. Dotada de muitos conhecimentos, ensinada pelos melhores professores, a ela lhe proporcionavam tudo o que houvesse de melhor, para que nada lhe faltasse e tivesse toda a sabedoria necessária para reinar.

Chegada à terrível idade de assumir o pesado cargo que a esperava, foi-lhe igualmente dito que deveria encontrar um esposo à sua altura, de preferência entre os jovens e promissores colunáveis que apareciam nas revistas, com antepassados suficientes para provar a sua linhagem até à origem dos tempos. A princesa intrigou-se com tal tarefa, porque não percebia ainda que motivos levariam a que ela fosse obrigada a partilhar a sua vida com alguém, que não a serviria, não a ensinaria, mas que estaria simplesmente com ela. Em vão lhe tentaram explicar que alguém da sua estirpe tem de casar e ter descendentes que iriam assegurar a continuação da sua linhagem.

À princesa sempre haviam contado histórias de amor e de fadas que ajudavam belos príncipes que salvavam as princesas de torres ferozmente guardadas por dragões fumegantes, que as resgatavam para um maravilhoso reino onde vivam felizes para sempre. Não se indagou nunca do que acontecia depois desse final.

Desabituada desse tipo de emoções, achou simplesmente que deveria esperar pelo garboso príncipe, que a salvaria duma qualquer torre do seu castelo, e a levaria para um sítio maravilhoso onde seria feliz para sempre. Por mais que insistissem em lhe apresentar candidatos, por mais bailes e recepções oficiais, todas vãs tentativas face aquela teimosia de esperar pelo seu verdadeiro amor.

A princesa cresceu sem se demover dessa ideia, atingiu a maioridade e a regência, administrou guerras e conflitos, geriu finanças e seguranças sociais. Raramente saía do palácio, achando que a qualquer momento cascos de cavalo se ouviriam e a resgatariam. Não quis conhecer os confins do reino, nem as pessoas que a adoravam pelo bem que ela fazia.

Cega por essa ideia, não notou nunca um par de olhos que todos os dias a observavam, que lhe dispensavam os mais doces olhares de que há memória. Alguém que acompanhava os seus passos, com a leveza das nuvens em dias de Verão. Doces palavras lhe sussurrava, fazendo parecer até a mais dura declaração de impostos com uma linda declaração de amor. E não lhe sentia os suspiros, que se elevavam no ar como colunas de doce perfume.

Isto vai ser uma história com final feliz, certo?
Não há finais felizes, ou não seriam finais. Digamos simplesmente que, um belo dia, ela viu finalmente o que devia.


Ella...quando é que aparece o belo príncipe no cavalo branco para salvar a princesa?

domingo, 3 de fevereiro de 2008

she loves me, she loves me not

Ella reconheceu sem dúvidas o perfume que se espraiava pelo balcão - com um ligeiro toque de raiva, uma enorme dose de frustração, uma ponta de ignorância face a um futuro que se avizinhava solitário e muita saudade.

- Cuba Libre, Leigh ? - perguntou sem sequer se virar para confirmar a sua certeza.
- É melhor arriscares no Cuban Missile Crisis - suspirou profundamente. Ella corrigiu o seu braço, direccionando-o para o Bacardi 151.

Leigh apaixonou-se. Talvez pela pessoa errada. Talvez construindo uma daquelas estranhas relações de amor e ódio, em que todos vêem o ódio e só o casal vê o amor. Era como os ciclos da economia. Dias hiperbólicamente rosa, alegres manifestações de felicidade, bandas sonoras perfeitas. Subitamente, uma só palavra, um só gesto, e todas as flores eram esmagadas, os discos partidos e cada um para seu lado. Leigh dava tudo, fazia tudo, vivia daquela felicidade respirada dos sorrisos da sua cara metade. Metade essa que confundia a magia de estar apaixonado com o hábito quotidiano de fazer as compras para o jantar. Segundo o irritado Leigh que ali se apresentava, nâo confundia, porque simplesmente não sabia que essa outra parte mágica existia.

- Maus hábitos? - perguntou Ella delicadamente, tentando chegar ao cerne da questão.
- Poder-se-á dizer que sim.Alguém que todos os dias recebe flores, todos os dias recebe telefonemas, todos os dias recebe atenção. E que acha que ter uma relação passa simplesmente por fazer coisas...quotidianas juntas.
- Ah, então isso não é uma relação - concluiu Ella. - É um casamento.