Ella olhou de relance para o pequeno par de olhos que não a deixavam só nem por um segundo. Só uma história, pediu ela. Prometo que depois adormeço e não peço mais nada. Prometes, sem sombra de dúvida? Nem que venha o monstro do armário? Sim, prometo.
Em tempos houve um reino distante onde morava uma princesa, amada por todos os seus súbditos. Mimada ao extremo pelos seus queridos pais, ela raramente saia de casa, receando eles que ela encontrasse alguma imagem menos bonita, ou alguma pedra nas estradas, e que voltasse ao seu recanto desiludida, pensando que o mundo não era perfeito. Dotada de muitos conhecimentos, ensinada pelos melhores professores, a ela lhe proporcionavam tudo o que houvesse de melhor, para que nada lhe faltasse e tivesse toda a sabedoria necessária para reinar.
Chegada à terrível idade de assumir o pesado cargo que a esperava, foi-lhe igualmente dito que deveria encontrar um esposo à sua altura, de preferência entre os jovens e promissores colunáveis que apareciam nas revistas, com antepassados suficientes para provar a sua linhagem até à origem dos tempos. A princesa intrigou-se com tal tarefa, porque não percebia ainda que motivos levariam a que ela fosse obrigada a partilhar a sua vida com alguém, que não a serviria, não a ensinaria, mas que estaria simplesmente com ela. Em vão lhe tentaram explicar que alguém da sua estirpe tem de casar e ter descendentes que iriam assegurar a continuação da sua linhagem.
À princesa sempre haviam contado histórias de amor e de fadas que ajudavam belos príncipes que salvavam as princesas de torres ferozmente guardadas por dragões fumegantes, que as resgatavam para um maravilhoso reino onde vivam felizes para sempre. Não se indagou nunca do que acontecia depois desse final.
Desabituada desse tipo de emoções, achou simplesmente que deveria esperar pelo garboso príncipe, que a salvaria duma qualquer torre do seu castelo, e a levaria para um sítio maravilhoso onde seria feliz para sempre. Por mais que insistissem em lhe apresentar candidatos, por mais bailes e recepções oficiais, todas vãs tentativas face aquela teimosia de esperar pelo seu verdadeiro amor.
A princesa cresceu sem se demover dessa ideia, atingiu a maioridade e a regência, administrou guerras e conflitos, geriu finanças e seguranças sociais. Raramente saía do palácio, achando que a qualquer momento cascos de cavalo se ouviriam e a resgatariam. Não quis conhecer os confins do reino, nem as pessoas que a adoravam pelo bem que ela fazia.
Cega por essa ideia, não notou nunca um par de olhos que todos os dias a observavam, que lhe dispensavam os mais doces olhares de que há memória. Alguém que acompanhava os seus passos, com a leveza das nuvens em dias de Verão. Doces palavras lhe sussurrava, fazendo parecer até a mais dura declaração de impostos com uma linda declaração de amor. E não lhe sentia os suspiros, que se elevavam no ar como colunas de doce perfume.
Isto vai ser uma história com final feliz, certo?
Não há finais felizes, ou não seriam finais. Digamos simplesmente que, um belo dia, ela viu finalmente o que devia.
Ella...quando é que aparece o belo príncipe no cavalo branco para salvar a princesa?