Até mesmo num bar destes, irremediavelmente, a porta se abre e deixa entreaver uma cara conhecida e se esboça um sorriso. Lucy estava de volta. Suspirou, como sempre, saudou meia dúzia de habitués e sentou-se no balcão onde Ella ponderava entre um Flamming Sumbuca ou um Amaretto Sour. Lucy leu-lhe os pensamentos e decidiu, sem mais delongas, um Amaretto Stone Sour.
"Assim tão mau?", questionou Ella, aguçada a curiosidade de ver uma alma tão empedernida e fugida do mundo voltar de novo a suspirar por ter amado e ter perdido. Lucy coleccionava tantas almas perdidas como o diabo, sempre disposta a dar este mundo e outro por algum tipo de salvação amorosa. Mas ao contrário do diabo, que engana e ganha, ela perdia e era enganada. Desde há muito que Lucy temia novamente assinar tais tipos de contratos, tendo passado a ditar regras duras e restritivas, que a impediam de voltar a abrir a porta da sua casa e da sua alma a quem quer que se lhe atravessasse à frente.
Ella acreditava já que Lucy passaria o resto dos seus dias a saltitar de partido em partido, fugindo no momento exacto em que o seu relógio interno marcava a hora em que se passava da diversão para a relação séria. Tinha a sua dose de corações destroçados, e demasiadas cirurgias de coração aberto para voltar a sofrer mais um deslize.
"Uma história como todas as outras. Certo dia, dás por ti em não querer saltar da cama. Como se estivesses cansada de fugir, de não assentar. Olhas para o lado, ficas entre o conformismo e a curiosidade da aposta...qual corrector da bolsa, analisas, calculas, ponderas. Eu ponderei semana após semana, esticando cada vez mais o prazo de validade, aproveitando cada momento como se fosse o último. E quando finalmente ganhei coragem e decidi arriscar...acordei sozinha."
"Provaste do teu próprio remédio."
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
terça-feira, 23 de outubro de 2007
segunda-feira, 8 de outubro de 2007
it cuts you up, it throws about
Ella marca o ritmo baixinho, guardando na memória os tempos em que mesmo sem dominar a língua, já se dedicava a conhecer a música de cor e salteado. Those were the days, comentou musicalmente o soturno consumidor de Bloody Maries, Bloody Gheishas ou mesmo Bloody Scotsman. Ella ansiava pelo dia em que poderia finalmente servir um Bloodless Mary. (como se de uma cura se tratasse).
Ella levantou o olhar das medidas do shaker, para confirmar se ele teria idade para saber do que falava. Tinha. Muitos mais anos do que esses, tinha idade para saber falar do directo da aterrissagem lunar, em primeira pessoa. Vejamos. Ou se nasceu a tempo de viver justamente nessa época. Ou se nasce demasiado tarde, e se vive o resto do tempo como um retro. Ou nasce-se antes do tempo, e vive-se contra. Ao contrário da filosofia dos restantes da sua faixa etária, este estava claramente envolvido nessa estranha fase musical.
Ella perdeu-se no seu habitual raciocínio dedutivo, emergindo de repente para se aperceber que nunca tinha indagado bem o motivo daquela habitual presença no seu balcão. Nunca demasiado deprimido, nunca choroso, nunca levado ao extremo da embriaguez. Raramente se metia com alguém, poucos foram os que com ele tentaram socializar. Exímio pagador. Em suma, o cliente perfeito. Fiel ao seu habitual consumo, como se cada imagética dose de amargo sangue lhe pudesse trazer a vida que em tempos nele existira, e que agora se extinguia a passos largos.
"I don't know just what went wrong. Those Were The Days." ele sussurrou novamente, como que a ter a certeza de que alguém o compreenderia. Terminou o seu o Bloody Mary, pousou o copo delicadamente no balcão, e vasculhou os bolsos à procura do seu cartão de consumo, que por esta altura estaria já preenchido na totalidade com as mórbidas cruzinhas de cemitério com que Ella adorava carimbar os cartões. A gorjeta foi generosa, assim como o seu olhar de agradecimento.
"This one is on the house.". Era um Bleeding Mary, o que o fez arregalar os olhos de espanto e de delícia. De repente, e sem etiqueta nenhuma, deitou-o abaixo de uma só vez e saiu porta fora.
Ella suspirou ao saber de antemão que este já não voltaria.
Ella levantou o olhar das medidas do shaker, para confirmar se ele teria idade para saber do que falava. Tinha. Muitos mais anos do que esses, tinha idade para saber falar do directo da aterrissagem lunar, em primeira pessoa. Vejamos. Ou se nasceu a tempo de viver justamente nessa época. Ou se nasce demasiado tarde, e se vive o resto do tempo como um retro. Ou nasce-se antes do tempo, e vive-se contra. Ao contrário da filosofia dos restantes da sua faixa etária, este estava claramente envolvido nessa estranha fase musical.
Ella perdeu-se no seu habitual raciocínio dedutivo, emergindo de repente para se aperceber que nunca tinha indagado bem o motivo daquela habitual presença no seu balcão. Nunca demasiado deprimido, nunca choroso, nunca levado ao extremo da embriaguez. Raramente se metia com alguém, poucos foram os que com ele tentaram socializar. Exímio pagador. Em suma, o cliente perfeito. Fiel ao seu habitual consumo, como se cada imagética dose de amargo sangue lhe pudesse trazer a vida que em tempos nele existira, e que agora se extinguia a passos largos.
"I don't know just what went wrong. Those Were The Days." ele sussurrou novamente, como que a ter a certeza de que alguém o compreenderia. Terminou o seu o Bloody Mary, pousou o copo delicadamente no balcão, e vasculhou os bolsos à procura do seu cartão de consumo, que por esta altura estaria já preenchido na totalidade com as mórbidas cruzinhas de cemitério com que Ella adorava carimbar os cartões. A gorjeta foi generosa, assim como o seu olhar de agradecimento.
"This one is on the house.". Era um Bleeding Mary, o que o fez arregalar os olhos de espanto e de delícia. De repente, e sem etiqueta nenhuma, deitou-o abaixo de uma só vez e saiu porta fora.
Ella suspirou ao saber de antemão que este já não voltaria.
domingo, 7 de outubro de 2007
The caretaker
Ella não exibe nunca um sorriso radioso a cada novo cliente que se lhe depara ao balcão. Não acolhe os conhecidos com calorosos abraços. Limita-se a falar baixinho, acompanhando o ritmo das palavras com o pestanejar das suas longas sobrancelhas, enquanto perscruta nos armários da memória qual o cocktail que já confortou aquela alma desvalida, ou que nova mistura inventar para lhe acalentar o espírito. Há quem se surpreenda com aquela capacidade mediúnica de ver além das cicatrizes dos outros e saber que história por detrás destas se esconde. Ella fecha-se ainda mais sobre si mesma quando um novato tem audácia de lhe perguntar isso, para depois se abrir num estranho olhar de facto assumido de quem sabe, sabe.
Uma espécie de locus amenus entre tantos locus horrendus. A paz de espírito a que todos anseiam. Que ela distribui, em tons sonoros, palpáveis e deglutíveis. Chega por vezes a ser a mão que empunha a faca. Mas que nunca ousou desferir.
No final de cada noite, Ella serve-se imperetrivelmente do seu Bombay Saphire, e escolhe finalmente a sua banda sonora, ao invés das bandas sonoras dos outros. De janelas abertas, para escoar tanta tristeza e evaporar o sal de tantas lágrimas que se acumulam nos copos e nas esquinas das mesas.
E sente que mais uma vez valeu a pena.
Uma espécie de locus amenus entre tantos locus horrendus. A paz de espírito a que todos anseiam. Que ela distribui, em tons sonoros, palpáveis e deglutíveis. Chega por vezes a ser a mão que empunha a faca. Mas que nunca ousou desferir.
No final de cada noite, Ella serve-se imperetrivelmente do seu Bombay Saphire, e escolhe finalmente a sua banda sonora, ao invés das bandas sonoras dos outros. De janelas abertas, para escoar tanta tristeza e evaporar o sal de tantas lágrimas que se acumulam nos copos e nas esquinas das mesas.
E sente que mais uma vez valeu a pena.
sexta-feira, 5 de outubro de 2007
welcome aboard
A pedido de muitas almas perdidas e em busca de respostas, achou-se por bem criar um espaço acolhedor onde se pode carpir as mágoas sem pejo nem abuso. Onde se pode, dia após dia, suspirar em vão pelo fim que nunca chega, pelo alívio que os ansíoliticos nunca trarão. Onde o quotidiano nada mais é do que...quotidiano.
Um espaço onde todos odeiam esta maldita sensação que é estar assim sem rumo, sem saber bem o que fazer. Onde o podem expressar à vontade. Onde poderão obter bons conselhos, onde poderão deixar perguntas, onde tanto correrão rios de tinta como tinto de anos fartos.
Basta que para tal se deixem corromper pelo ambiente. E quando dele estiverem já fatigados, significará então que cumprimos a nossa parte, e que estão curados.
Um espaço onde todos odeiam esta maldita sensação que é estar assim sem rumo, sem saber bem o que fazer. Onde o podem expressar à vontade. Onde poderão obter bons conselhos, onde poderão deixar perguntas, onde tanto correrão rios de tinta como tinto de anos fartos.
Basta que para tal se deixem corromper pelo ambiente. E quando dele estiverem já fatigados, significará então que cumprimos a nossa parte, e que estão curados.
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