sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

blind

Ella olhou de relance para o pequeno par de olhos que não a deixavam só nem por um segundo. Só uma história, pediu ela. Prometo que depois adormeço e não peço mais nada. Prometes, sem sombra de dúvida? Nem que venha o monstro do armário? Sim, prometo.

Em tempos houve um reino distante onde morava uma princesa, amada por todos os seus súbditos. Mimada ao extremo pelos seus queridos pais, ela raramente saia de casa, receando eles que ela encontrasse alguma imagem menos bonita, ou alguma pedra nas estradas, e que voltasse ao seu recanto desiludida, pensando que o mundo não era perfeito. Dotada de muitos conhecimentos, ensinada pelos melhores professores, a ela lhe proporcionavam tudo o que houvesse de melhor, para que nada lhe faltasse e tivesse toda a sabedoria necessária para reinar.

Chegada à terrível idade de assumir o pesado cargo que a esperava, foi-lhe igualmente dito que deveria encontrar um esposo à sua altura, de preferência entre os jovens e promissores colunáveis que apareciam nas revistas, com antepassados suficientes para provar a sua linhagem até à origem dos tempos. A princesa intrigou-se com tal tarefa, porque não percebia ainda que motivos levariam a que ela fosse obrigada a partilhar a sua vida com alguém, que não a serviria, não a ensinaria, mas que estaria simplesmente com ela. Em vão lhe tentaram explicar que alguém da sua estirpe tem de casar e ter descendentes que iriam assegurar a continuação da sua linhagem.

À princesa sempre haviam contado histórias de amor e de fadas que ajudavam belos príncipes que salvavam as princesas de torres ferozmente guardadas por dragões fumegantes, que as resgatavam para um maravilhoso reino onde vivam felizes para sempre. Não se indagou nunca do que acontecia depois desse final.

Desabituada desse tipo de emoções, achou simplesmente que deveria esperar pelo garboso príncipe, que a salvaria duma qualquer torre do seu castelo, e a levaria para um sítio maravilhoso onde seria feliz para sempre. Por mais que insistissem em lhe apresentar candidatos, por mais bailes e recepções oficiais, todas vãs tentativas face aquela teimosia de esperar pelo seu verdadeiro amor.

A princesa cresceu sem se demover dessa ideia, atingiu a maioridade e a regência, administrou guerras e conflitos, geriu finanças e seguranças sociais. Raramente saía do palácio, achando que a qualquer momento cascos de cavalo se ouviriam e a resgatariam. Não quis conhecer os confins do reino, nem as pessoas que a adoravam pelo bem que ela fazia.

Cega por essa ideia, não notou nunca um par de olhos que todos os dias a observavam, que lhe dispensavam os mais doces olhares de que há memória. Alguém que acompanhava os seus passos, com a leveza das nuvens em dias de Verão. Doces palavras lhe sussurrava, fazendo parecer até a mais dura declaração de impostos com uma linda declaração de amor. E não lhe sentia os suspiros, que se elevavam no ar como colunas de doce perfume.

Isto vai ser uma história com final feliz, certo?
Não há finais felizes, ou não seriam finais. Digamos simplesmente que, um belo dia, ela viu finalmente o que devia.


Ella...quando é que aparece o belo príncipe no cavalo branco para salvar a princesa?

domingo, 3 de fevereiro de 2008

she loves me, she loves me not

Ella reconheceu sem dúvidas o perfume que se espraiava pelo balcão - com um ligeiro toque de raiva, uma enorme dose de frustração, uma ponta de ignorância face a um futuro que se avizinhava solitário e muita saudade.

- Cuba Libre, Leigh ? - perguntou sem sequer se virar para confirmar a sua certeza.
- É melhor arriscares no Cuban Missile Crisis - suspirou profundamente. Ella corrigiu o seu braço, direccionando-o para o Bacardi 151.

Leigh apaixonou-se. Talvez pela pessoa errada. Talvez construindo uma daquelas estranhas relações de amor e ódio, em que todos vêem o ódio e só o casal vê o amor. Era como os ciclos da economia. Dias hiperbólicamente rosa, alegres manifestações de felicidade, bandas sonoras perfeitas. Subitamente, uma só palavra, um só gesto, e todas as flores eram esmagadas, os discos partidos e cada um para seu lado. Leigh dava tudo, fazia tudo, vivia daquela felicidade respirada dos sorrisos da sua cara metade. Metade essa que confundia a magia de estar apaixonado com o hábito quotidiano de fazer as compras para o jantar. Segundo o irritado Leigh que ali se apresentava, nâo confundia, porque simplesmente não sabia que essa outra parte mágica existia.

- Maus hábitos? - perguntou Ella delicadamente, tentando chegar ao cerne da questão.
- Poder-se-á dizer que sim.Alguém que todos os dias recebe flores, todos os dias recebe telefonemas, todos os dias recebe atenção. E que acha que ter uma relação passa simplesmente por fazer coisas...quotidianas juntas.
- Ah, então isso não é uma relação - concluiu Ella. - É um casamento.